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   Olá

 

Resolvi organizar as ideias. O anúncio não passou incólume.

 

"A sério? Boa sorte!", ironizou a minha consciência.

Em resposta à provocação, recordei-lhe a pertinência do equilíbrio: os dias são exigentes e acumulam-se a um ritmo supersónico; e o mundo... cada vez mais impercetível e árido.

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Acredito que esta tentativa de organização sustente a minha fé, já que o meu cérebro insiste numa anarquia persistente — um fertilizante da ansiedade. O autodiagnóstico que me ocorre aproxima-se de uma agnosia: reconheço muito pouco do "aqui" e do "agora".

O ritmo e as exigências dos tempos modernos consomem-me o pensamento — logo a mim, que sempre me deslumbrei com as profecias do futuro. Hoje — ontem também e, provavelmente, amanhã — não consigo olhar para o mundo sem perplexidade. Na minha mente, em repetição obstinada, ecoa a pergunta: "O ser humano?" Tão ingénua quanto complexa.

 

Conforme o dia, a hora e o rosto observado, oscilo entre o encanto e o horror, consoante se revele mais o bestial ou a besta. Nada de novo, bem sei: sempre coexistiram o bem e o mal, o belo e o feio. Ainda assim, há algo de persistentemente fascinante na observação da vida humana. 

      "Sou humano, nada do que é humano me é estranho."

                                                                                                 Públio Terêncio Afro

Não estou sozinha neste exercício de contemplação. Tenho cúmplices — mestres na arte de abalar o pensamento. O seu maior poder? A metamorfose. Encontrei-os sobretudo nos livros, mas também noutras artes. Foi graças a eles que contraí a doença do fascínio: vivo suspensa entre o passado e o futuro, enquanto o presente amadurece lentamente até se tornar passado legível. O resultado é previsível: séculos de pesquisa pela frente, pois, como já se disse, "só sei que nada sei".

Apesar de tudo, estou feliz neste estado ébrio. Claro que há ressacas — toda a embriaguez tem o seu preço. Nesses momentos, recorro a Shakespeare, sobretudo a Hamlet, para me revitalizar de coragem e loucura. Shakespeare funciona como analgésico — embora permaneça a dúvida: alivia ou agrava a minha anarquia mental? Prefiro não insistir nessa questão agora.

Sei que hoje é "isto" e que amanhã poderá ser "aquilo". Antevejo, desde já, a "falha". Mas fica a promessa: "falharei melhor". 

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Em The Milk For Your Coffee, procuro esse suplemento incerto que acompanha o pensamento: às vezes suaviza, outras contrasta, outras ainda revela sabores inesperados. Tentarei partilhá-lo convosco com a generosidade, lucidez e honestidade possíveis — consciente de que nem todos gostam de café. Ou de leite. E não poderia ser de outra forma.​

Tudo isto serve, afinal, para vos convidar a mergulhar na complexidade social através da minha léria — aspirante a sábia, assumidamente imperfeita; humilde em certos dias, menos noutros. Um exercício contínuo de observação, falha e tentativa.

Por agora, fico por aqui. E deixo-vos com Hamlet:


"Ser ou não ser? Eis a questão."

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                                                                                                                                                               Matilde Romeu

Woman in sunglasses with smoke coming out of her mouth.
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