A ECONOMIA DO APEGO
- 10 de set. de 2025
- 6 min de leitura
Atualizado: 31 de mar.

O jovem carregava uma visão distorcida do amor. Quis aquietar-lhe o coração para que o amor tivesse futuro na sua vida.
Procurei um poema que lhe desse um desígnio. Missão impossível.
Era uma alma em apuros, e eu queria que ele visse outra possibilidade. Não consegui: o algoritmo ocupou o espaço das minhas palavras e diminuiu-lhe a capacidade de concentração.
Por estes dias, o futuro das relações pessoais dá muito que pensar. Porém, nada de excessivamente filosófico, pois a reflexão exige tempo — e o uso ou a perda desse tempo ganhou novos desígnios, quase sempre associados ao lucro material. A abreviação tornou-se crucial. Que não se perca tempo; perca-se a capacidade reflexiva e façam-se conexões neuronais apenas com o que realmente interessa — mote que talvez esteja a moldar um padrão único de cognição. Não sei; veremos. Resta esperar pelo que as futuras gerações nos revelarão.
Durante esta semana, enquanto tentava gerir a ansiedade provocada pela preocupação constante com a gestão do tempo — cuja rentabilidade espelha a minha miséria material (procuro outro tipo de lucro, aqui exibido através do meu presunçoso intelecto) —, li que quem não dominar minimamente as ferramentas de inteligência artificial generativa ficará inevitavelmente à margem da sociedade.
Os resultados de um estudo, ainda que preliminar, revelaram as mais-valias do uso adequado da IA. Concluiu-se que estas ferramentas contribuem significativamente para o aumento da produtividade no trabalho. Li também — o outro lado da moeda — que uma nova tendência social, ligada ao modo como muitos utilizadores recorrem à IA, tem-se traduzido em repercussões negativas no bem-estar e na saúde mental, enquanto gera lucros expressivos para as empresas tecnológicas. Trata-se da chamada "economia do apego". Neste contexto, a interação com a IA é personalizada e, por consequência, gera dependência — uma manipulação que conduz ao isolamento social.
Ao ler tudo isto, lembrei-me de uma das vezes em que me deparei com uma novidade, para mim, no que diz respeito à interação humana. Confesso que me senti confortável no meu papel de Velho do Restelo quando um jovem, de forma inusitada, revelou o que me pareceu uma tortuosidade — motivada por referências adquiridas em ambiente digital — nas relações humanas. Não que as ligações afetivas não sejam, em grande medida, tortuosas — são —, mas aquela breve experiência intensificou o meu desassossego perante o desenvolvimento tecnológico e adensou incertezas. E confirmou-me a urgência: a reflexão filosófica profunda é, mais do que nunca, uma emergência.
Posto isto, passo à narração da história em estilo de guião de videoclipe, como se eu fosse o Dave Meyers, só para criar a perceção de que a minha pseudoarte, ao nível do "caratere", está em consonância com o Zeitgeist — ou, como diria o Velho do Restelo, "o espírito do tempo". Será que ainda se pode dizer teledisco, ou é anacronismo?
Então cá vai: durante o exercício de sugar o tutano da humanidade, convivia com um indivíduo da geração posterior à minha — já nascido na era digital consolidada — quando o rapaz manifestou o que me pareceu ser o gap geracional, ou talvez uma modernidade que repudio. Deixou-me aturdida: recuso qualquer papel que não seja o de ser "in" e supermoderna. Ainda assim, convém ressalvar: há certas convenções que não vendo por tuta e meia — adquiriram o estatuto de valores e, por isso, são intocáveis.
Antes de avançar no guião, guardem esta frase:"Apetecia-me colocar a tua mensagem no ChatGPT para retirar de lá o essencial." Disse-me o jovem, a dada altura. Em minha defesa, adianto que a mensagem não se assemelhava a nenhum testamento, nem o seu conteúdo estava desfasado do essencial. Porém, assumo que na minha escrita não uso abreviações, raramente recorro a emojis, pontuo sempre as frases e jamais respondo com monossílabos. Ignorando a explicação da minha mensagem, que o jovem considerou demasiado longa e lhe causou preguiça, acabou por trocar o horário noturno sugerido por mim pelo da manhã. Haja paciência: compreender o outro exige esse esforço.
Mas adiante. Vou contar a história como deve ser, e como deve ser é: começar pelo início. Estava eu, assoberbada, com o cérebro mergulhado no epicentro da informação (jornais, revistas, redes sociais, etc.), a descortinar o que parecia um permanente caos social — precisava urgentemente de vir à tona —, quando "ouço o plim" do match no telemóvel.
Não. Esperem. Vou retroceder.
Agora sim, continuemos em modo music video script, invertendo a lógica: primeiro as imagens do vídeo e só depois a redação do guião. Assim, sigo, ao que parece, uma tendência em voga — a realidade a sobrepor-se à ficção. Hoje, Orwell não se safaria.
Escolham a banda sonora e cá vai: visualizem uma mulher emancipada e de mente aberta, num cenário ultrapop, estilo storyboard moderno.
Porém, não descurem este parêntese da narrativa: sendo adepta do multiculturalismo, indiferente a diferenças de idade, orientação sexual, religião, cor de pele e localização geográfica, rejeito extremismos, machismos e mediocridade intelectual — necedade em geral. Por assim dizer, interessa-me o quão "diferente" e íntegro é o indivíduo (um desejo talvez meio punk, nos dias que correm). Confesso, porém, que há sintomas que podem indicar que sofro de sapiofilia (tenho esperança de que Valter Hugo Mãe aceite casar comigo um dia). Mas não nego que o abismo me atrai, quase sempre na forma de uma bela e selvagem barba.
Devaneios à parte, segue-se o primeiro embate geracional. Não foi o facto de o indivíduo ser quinze anos mais novo do que eu, mas a troca de mensagens com demasiados "k" (kkkkkk) e emojis. Já para não falar da escrita telegráfica, repleta de abreviaturas, que me fazia doer os olhos. Cada mensagem obrigava-me a pesquisar no Google para decifrar o novo dialeto digital. Que dor de cabeça (pedi socorro a Saramago para aliviar a enxaqueca). Nada me agradava na escrita, salvo um tom simpático. Percebi, no entanto, que estava diante daquilo que até então conhecia apenas por artigos de revistas e jornais: as idiossincrasias de uma geração distinta da minha. E lá fui indagar. Não quero enganar ninguém: além da curiosidade intelectual, havia uma barba pelo meio, irresistível no seu poder de atração — o que me levou a ponderar levar o tema das pilosidades para a próxima sessão de terapia.
Após alguns encontros e conversas dispersas, concluí que a experiência de vida do rapaz estava, naquele momento, reduzida ao ecrã do computador e ampliada pelo tempo disponível, já que decidira fazer uma pausa na sua carreira profissional.
E aqui começa o perigo — o algoritmo — quando se fala em relações pessoais saudáveis. Não escapei a isto sem ser invadida pela estupefação, ainda que não estivesse totalmente desinformada. Ler sobre algo não é o mesmo que experienciar: quando se vive, tudo passa pelo filtro das emoções.
Devo dizer que, desde o início, estabelecemos encontros meramente casuais.
A aparência irreverente atraía-me. A imagem distinta agradava-me — ser diferente é algo que valorizo. Mas tal diferença revelou-se máscara: caiu quando o discurso deixou transparecer uma educação machista, reforçada pelo conteúdo digital que consumia. Não era explícito; percebia-se nas entrelinhas.
Não culpo os pais do rapaz: grande parte da minha geração recebeu uma educação assente no pressuposto de marido provedor e esposa doméstica — ou melhor, domesticada. Vi isso toda a vida e fugi disso a vida inteira. Desde cedo senti o peso esmagador de um dos lados da balança — um desequilíbrio demasiado evidente.
O estilo irreverente do jovem foi-se revelando paupérrimo, tanto nos gestos como nas palavras: a banalidade inconsciente.
Continuei a observação: a intimidade desenrolava-se sob diretrizes de guiões de filmes pornográficos — uma apreensão do irreal. O guião dos gestos íntimos é outro.
Havia, contudo, intervalos de vulnerabilidade, em que via a vontade e o medo de amar.
O jovem carregava uma visão distorcida do amor. O algoritmo mostrara-lhe o demónio: a versão da traidora do Éden que comera o fruto proibido. Quis aquietar-lhe o coração para que o amor tivesse futuro na sua vida. Procurei um poema que lhe desse um desígnio. Missão impossível. Tentei perceber qual das frases do livro Tudo do Amor serviria o propósito. Entretanto, percebi que, em conceções distorcidas, a linguagem do amor se revela intrincada: o que não se entende converte-se em abstração e, por isso, em irrelevância. Era uma alma em apuros, e eu queria que ele visse outra possibilidade. Não consegui: o algoritmo ocupou o espaço das minhas palavras e diminuiu-lhe a capacidade de concentração. "Às vezes já só leio o resumo dos filmes que quero ver", dizia-me. O FOMO de quem não retém nada. Sem o devido estímulo, as sensações do corpo desfazem-se em frangalhos.
Tive de respirar. Fugi por momentos da observação. Conversei com Florbela Espanca. Pedi-lhe que me falasse sobre o amor. Generosamente, recordou-me a essência do sentimento. Guardei as palavras e segui renovada.
Continuei a observação. O rapaz irreverente procurava uma "domesticada". Abri imediatamente o livro assim que ouvi a pergunta: "Gostas de cozinhar?" Respondi: "Gosto de ir ao teatro, de ter tempo para ler e o meu sonho é ter um(a) chef que cozinhe só para mim". Perscrutei o desânimo nos olhos dele. Disse-me: "És do estilo intelectual". Retorqui: "Não. Sou do estilo mulher".
Alguns encontros mais tarde, ouvi: "Gosto que me façam bolos". Pousei a caneta e o papel. Abandonei o guião. Olhei para o chão, onde jazia a minha libido. A barba selvagem tornara-se, de imediato, objeto de repúdio.
Disse-lhe: "És jovem, vai beber um copo e divertir-te. As ruas do Porto, à noite, escondem o algoritmo. E és tu quem controla o feed. Não é fantástico?"
Ele não percebeu. Murmurou uma pergunta retórica enquanto olhava para o telemóvel: "Não sei se vou para casa a pé ou se apanho um Uber?"
Respondi-lhe: "Percebo. Essa é, de facto, a decisão mais difícil da tua vida".



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