O AÇAÍ, O MATCHA E A SAUDADE
- 15 de ago. de 2025
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Atualizado: 19 de mar.

A dada altura da minha reflexão, concluí que me encontrava entre dois mundos, separados pela porta dos lavabos, cujo interior revelava a resistência de uma cidade que insiste na sua autenticidade. Naquele cubículo, o finca-pé era perentório — não fosse essa a cidade conhecida por ser a Invicta.
Hoje escrevo a partir da modernidade, da cosmópole, do in, do “armado ao pingarelho” — feeling like an urban nomad: the trendy people (desculpem o inglês, mas "a bota tem de bater com a perdigota"). Os ingredientes principais são o açaí e o matcha. Sirva-se o açaí numa taça (bowl), com banana, mirtilos, frutos secos e flocos de aveia. Acompanhe-se com um fragola iced matcha latte: leite vegetal, tingido de verde pelo matcha, com um doce strawberry a repousar no fundo do copo.
Tudo isto pedi num café moderno, com néons verdes, mesas de madeira e loiça cool. Pelos vistos, com boas reviews: “A comida é saborosa, a música é agradável e o café é de qualidade”. Confirmo. A comida combina, definitivamente, com a sofisticação da cidade em voga — tem açaí, tem matcha e até os morangos ganham aura internacional: as italianíssimas fragole.
No entanto, lê-se também a indignação gerada pelo preço inflacionado do matcha latte: 6 €. Provavelmente de alguém que aprecia uma modernidade mais em conta. A cidade trendy tem o seu custo. Partilho da indignação do autor da review. O açaí adornado, o matcha latte e um expresso custaram-me 16 €. Mas hoje, o meu estado de espírito é moderno-progressista. Aceito a onerosidade.
No café, com vista para a rua, fui, involuntariamente, inalando os eflúvios vindos do exterior — odores diversos, tanto agradáveis como desagradáveis. Pareciam, um a um, revelar a cidade. Cidade que conheço; já os odores, não. Há uma eterna novidade, mesmo nos cheiros. Pelo menos para mim. Às vezes, sinto que cheguei atrasada ao mundo. Vou ter de palmilhar muito para alcançar a “cidade in”. Mas adiante, que o hodierno tem pressa e não espera por ninguém.
Constato, entretanto, que, se a modernidade se define pela novidade e pela evolução, poderíamos supor que o passado se reduzisse à esfera museológica — ou não.
Vejamos: o contemporâneo flui com o rasto do passado. Ou não teria eu ouvido o já conhecido discurso, de longa data, dos funcionários do café — jovens de cabelos pintados de azul, fluentes em inglês — a queixarem-se da entrada de clientes à hora de fecho. Só permitida a grandes grupos, claro, pois não se recusa tamanho lucro e, além disso, garantia-se uma boa review como moeda de troca.
Por outro lado, talvez o contemporâneo assuma, por vezes, a máscara do passado, disfarçado de vintage. Suponho que seja esse o conceito da casa de banho do café, com comida instagramável, música agradável e cimbalino de qualidade. Perdão: do expresso.
À primeira vista, não percebi o design dos lavabos: um cubículo de cimento de aspeto inacabado. Vintage? Ah, claro! É a estética inspirada na arquitetura brutalista. Igualzinha à da casa de banho da minha bisavó — que nada sabia de arquitetura. Para me manter no espírito modernista, presumi que o WC de inspiração béton brut (tendência arquitetónica outrora em voga), plantado no meio da estética branché, fosse um conceito que me escapava.
A dada altura da minha reflexão, concluí que me encontrava entre dois mundos, separados pela porta dos lavabos, cujo interior revelava a resistência de uma cidade que insiste na sua autenticidade. Naquele cubículo, o finca-pé era perentório — não fosse essa a cidade conhecida por ser a Invicta. Sentada naquele café, viajei até às mais variadas capitais europeias: vi as cores de Amesterdão, provei os sabores de Roma e ouvi os sons parisienses. Sempre que me apetecia regressar ao Porto, ia à casa de banho.
Assim sendo, e resumindo: saí de casa com roupas modernas, em alternative style, exibindo o meu “I don't care”. O roleplay era o do digital nomad, como denunciava a moderna mochila que transportava o computador. Sentei-me num dos muitos street workplaces, com menus escritos em inglês. Pedi a refeição instagramável que, da minha parte, não teve direito a fotografia. Para continuar na vanguarda, assumi estar rodeada de estética brutalista durante a utilização da casa de banho, que, mais tarde, se revelou uma das excentricidades do momento atual: a essência de uma cidade. Abri o computador. Observei e escrevi, enquanto sobre mim se abatia o paradoxo: conhecer novos cheiros, sabores e sons enriquece — mas sinto saudades de caminhar no deserto da minha cidade, sob o sol quente.



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