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Os Restos

  • 15 de ago. de 2025
  • 2 min de leitura

Atualizado: 11 de abr.

Triciclo de criança antigo


É a palavra conceito que pode, afinal, salvar os restos. Vejamos as máximas que os redimem: o vintage, a criatividade, o utilitário, o reaproveitamento, a parcimónia, o minimalismo e a versatilidade.






Os restos são, por definição, algo inferior: aquilo que já não se deseja, o objeto repudiado, o que deixou de ser proveitoso. A vida é feita de restos. Essa palavra sensaborona — que parece ter sido composta com o que sobrou da própria língua portuguesa — não convoca nem desejo nem rejeição, mas designa o velho, o estropiado, o desgastado, o feio, o inútil: a sobra de algo que é o "principal", olhada com indiferença.


Contudo, há quem se aproxime da frugalidade e liberte os restos da inutilidade, restituindo-lhes uma nova oportunidade.


É a palavra "conceito" que pode, afinal, salvar os restos. Vejamos as máximas que os redimem: o vintage, a criatividade, o utilitário, o reaproveitamento, a parcimónia, o minimalismo e a versatilidade.


Porém, numa perspetiva perversa — ao invocarmos a palavra "comunidade" e lhe atribuirmos os tentáculos do "principal" e do "secundário" —, o conceito pode relegar os restos à insignificância absoluta, submetendo-os aos imperativos do oportunismo, da exploração, da indiferença, do desprezo, da imoralidade, da corrupção e da desonestidade.


Secundarizar parte da comunidade é imoral. Idealmente, a comunidade deveria ser toda igual, mas "igualdade" — esse fundamento teórico-ideológico tão politicamente correto — é raramente aplicada aos desfavorecidos.


Não quero desfazer a ilusão, nem arruinar a teoria, mas ocorreu-me, de repente: as praias de ar livre, afinal, podem ter comportas que retêm o ar para o principal, inacessível ao secundário; a folha de telha galvalume da casa não condiz com a estética da cidade, que se quer limpa de restos; e a tez escura surge como a visão distópica de um certo conceito de belo e da suposta sapiência da comunidade.


Se assim é, então Os Miseráveis, de Victor Hugo, reduz-se a um belo musical a que se assiste. E os restos não existem. Talvez como o pó, que aspira a transformar-se em ar, mas que não passa de "restos" de terra: quando cai no chão das nossas casas, varremo-lo facilmente para debaixo do tapete.




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