"ROCK DA LIBERDADE"
- 24 de set. de 2025
- 11 min de leitura
Atualizado: há 3 dias

“Não somos livres para expressar as nossas ideias. Temos de lutar.” — diziam os antifascistas. Mas muitos nem tinham tempo para ideias: ao fim do dia estavam demasiado cansados para expressar fosse o que fosse. A luta era outra e começava de madrugada. E se fossem mulheres, pior: depois da jornada nas fábricas, lavavam e passavam as fraldas de pano dos filhos em lavadouros públicos e iam aos fontanários buscar água para abastecer a casa, carregando bilhas à cabeça.
Liberdade
Escolham a flor que quiserem.
A que os olhos cobiçam e cuja cor desperta os sentidos.
Elejam a vossa favorita. Têm liberdade para o fazer.
Façam-no em paz, porque são livres.
Preparação, copresença e memória
Faço sempre o mesmo percurso, em diferentes datas do ano — todas religiosamente assinaladas no calendário digital. Compro o bilhete online, anexo-o e aguardo a chegada do dia e da hora. Entretanto, a vida acontece, enquanto anseio por essa fuga: provoca-me, arrebata-me, arranca-me lágrimas ou risos e faz-me oscilar entre o conforto e o desconforto. No fim, resta-me a nobre tarefa de reorganizar o pensamento, não vá ele paralisar.
Pelo caminho, leio e observo: escuto, vejo, sinto, guardo. E, ao que parece, tudo nos prepara para nada — até chegar o dia.
Fiel ao hábito, consulto o calendário que me alerta para um dos pontos altos da semana.
A passo acelerado, em direção à paragem de metro, ponho em marcha o plano de escapatória. Já durante a viagem, recorro à informação que fui reunindo: a sinopse, as
críticas, as notas sobre o encenador, os intérpretes, etc.
Cronometro o trajeto para garantir dez minutos, antes de me sentar, dedicados apenas a observar o público no átrio. Penso que talvez todos ali — incluindo eu — sejamos democratas, ainda que escondamos um ou outro preconceito.
Estamos no lugar certo, à hora certa; e, no entanto, parece faltar algo. Talvez mais público — ou, melhor, um público mais diverso. Recordo então o que li sobre o período isabelino e o The Globe Theatre, onde todos compareciam e se misturavam. Ali aplaudiam-se os heróis e vaiavam-se os vilões — como, de certa forma, viria a acontecer durante aquela peça.
Já acomodada, leio a folha de sala enquanto ouço o burburinho. Espero o começo com ansiedade: tudo ali me desperta curiosidade, a par da admiração que tenho pelo talento do encenador e dos atores.
Observo o palco. O fascista já está em cena: sozinho, à cabeceira de uma mesa comprida, coberta com uma toalha onde se lê "Não passarão", e separado dos restantes atores, também já em palco. Mantém-se imóvel durante longos minutos, antes de a peça começar. Mais tarde, percebe-se que a imagem anuncia um banquete familiar cujo prato principal é a morte daquele homem — uma tradição tão convencional para eles como a habitual matança do porco em zonas rurais. Um ritual repetido todos os anos pela geração seguinte: capturar e matar um fascista.
Faz-se silêncio. As luzes e a atenção do público convergem para o palco. Longos minutos depois de a peça começar, ouvimos Catarina cantar: Sopra o vento, grita a tempestade/Pés em sangue, mas tenho de andar/P´ra conquistar a doce liberdade/Serei forte, terei de matar...
A violência está justificada — estará? Esse é agora o dilema de Catarina, pois chegara a sua vez de matar um fascista.
CATARINA (FILHA): Devíamos dialogar mais.
CATARINA (MÃE): Já te disse: não se dialoga com fascistas. Luta-se contra eles.
CATARINA (FILHA): Devíamos dialogar mais com as pessoas que votam nos fascistas. As que se sentem excluídas. As que não têm voz. Mostrar-lhes que estão a ser manipuladas. Apelar ao melhor que há nelas, em vez de explorar o medo e o preconceito. Fazer política.
CATARINA (MÃE): Boa sorte.
CATARINA (FILHA): Achas que essas pessoas não merecem?
CATARINA (MÃE): Acho que é impossível. Os fascistas subvertem todas as regras da democracia; fazem batota. Tu queres combatê-los e, ao mesmo tempo, cumprir as regras da democracia. Não dá. A democracia é impotente perante a ameaça do fascismo. O fascismo corrói-a por dentro, como um ácido. Se queremos salvar a democracia, tem de haver gente como nós, disposta a violar a lei, a sacrificar a sua inocência, a sujar as mãos.
Catarina e a Beleza de Matar Fascistas, cena 17
Catarina e a Beleza de Matar Fascistas
Catarina e a Beleza de Matar Fascistas estreou em dezembro de 2020. Durante a criação da peça, a pergunta que ecoava na cabeça do encenador Tiago Rodrigues — e que dá título ao posfácio, da autoria do jornalista Gonçalo Frota, incluído na edição do texto publicada em 2024, era: "Como chegámos aqui?".
E como é que começou tudo? Com a opiniãozinha. Explorando o medo e o preconceito. Mentindo. Manipulando. Criando a infra-estrutura da impunidade. Os alicerces do edifício fascista. Agora vale tudo. Porquê? Porque nós permitimos que eles continuassem a falar, a falar, a falar. Que nojo. Há anos a ouvi-los. Cada vez mais opiniões. Cada vez mais vozes fascistas. E nós a ouvi-los. Uma náusea. Uma impotência. Uma vontade de matar. E tu queres que eu o deixe falar? Para fazer um dos seus discursos? As palavras são poderosas, Catarina. Devias saber isso. Os discursos que ele escreveu, agora são leis. Amanhã serão artigos da Constituição. E onde é que tudo começou? Na opiniãozinha. A maldita opiniãozinha que ninguém teve a coragem de matar à nascença.
Catarina e a Beleza de Matar Fascistas, cena 17
A última frase da peça é "Viva Portugal", antecedida de "Viva a Nova República". Todas as palavras do longo discurso que a precede, condensadas no grito em tom de slogan, soaram como marteladas, repetidas com intensidade crescente a cada ponto final de uma narrativa demasiado conhecida: aquela em que a história da humanidade dispensa o
déjà-vu.
Sempre que o discursante interrompia a ladainha para respirar e renovar o fôlego, sentia-lhe o bafo, que, no silêncio denso da sala, se tornava evidente: as palavras ganhavam a forma de um braço em riste, ainda que se dissimulassem à medida que chegavam até mim.
Na sala de teatro ouviu-se a indignação: "Fascista. Cala-te, fascista!" — gritaram várias pessoas angustiadas. Não tive coragem de o fazer, mas senti-me inquieta como não me lembro de alguma vez me ter sentido numa sala de teatro.
Os sentimentos, em alvoroço, ora se rendiam à interpretação do ator — à forma como encarnava aquele fascista — ora repeliam as suas palavras, com ecos tão assustadoramente reconhecíveis.
O discurso, com cheiro a naftalina, inspirado em tantos outros proferidos ao longo da nossa história moderna e que, infelizmente, caem facilmente no esquecimento, até que um oportunista ambicioso os recupera e os estuda para — desejando sentir o poder a correr-lhe nas veias — levar a cabo a reversão do regime democrático, não era ficção. Era o real que, ali mascarado de teatro, reapareceu e voltou a assombrar o nosso quotidiano nos últimos anos.
A dissecação do discurso, que viria a nortear também a escrita de Tiago Rodrigues no momento de colocar palavras na boca do fascista, apontava para pontos-chave como: a identificação de um problema ("normalmente relacionado com fronteiras físicas ou ideológicas"); a retórica destinada a convencer de que o orador é, afinal, a figura salvífica, único antídoto para esse problema e cavando um fosso que separa um de "nós" de um "deles"; o sublinhado do quanto há de abnegação e de altruísmo da sua parte em ter de entrar no fastidioso e corrupto jogo político para expurgar a sociedade dos seus males; a sua repetida afirmação de que se entende como um mero representante daqueles que o escutam e elegem, nunca alguém que age em proveito próprio.
Excerto do posfácio do livro Catarina e a Beleza de Matar Fascistas
Saí do teatro absorta. Saímos todos, de semblante sério e pensativo. Não me lembro das árvores, das ruas ou da velocidade do metro no regresso a casa. Continuava presa à experiência que tinha vivido. Aquela família de Catarinas povoou-me o pensamento durante dias — e ainda o faz sempre que encaro a realidade atual.
Entre o receio e a ansiedade, o meu cérebro fervilha: nasci livre e só concebo um futuro pleno de liberdade. Mas sinto-a na corda bamba, com a angustiante sensação de que tudo está por um triz; como quando se observa um exercício de funambulismo, e se acredita que o artista treinou o suficiente para evitar a queda. Ainda ontem cantava o "Rock da Liberdade"; hoje redistribuo o meu tempo: tenho de lutar. É como se, nos últimos meses, tivesse vivido de cabeça para baixo — em posição de pino.
Por agora, interrompo o fluxo das ideias e a consequente inquietação.
Volto à peça de teatro que me trouxe até aqui, para a situar no tempo: 2028, o ano em que decorre a ação. Tiago Rodrigues concluiu ser uma data ideal para contar a história daquela família; na altura em que construía o enredo (em 2019), pensava-se que decorreriam dois ciclos legislativos. Como se lê no livro da peça, o encenador considerou ser "uma data suficientemente distante para parecer plausível e suficientemente próxima para se tornar assustadora".
Otimista, Tiago Rodrigues não queria acertar na profecia. Queria falhar o tiro e manter a narrativa no campo da ficção, alargando a função do teatro à ação preventiva: refletir e discutir.
A propósito, convém lembrar que, em 2019, foi eleito o primeiro deputado da extrema-direita em Portugal. Hoje, após três sufrágios legislativos, a extrema-direita portuguesa ocupa sessenta lugares na Assembleia da República e constitui o segundo maior grupo parlamentar.
Catarina e a Beleza de Matar Fascistas coloca-nos perante a pergunta: "Deverá defender-se a violência em nome da proteção dos valores democráticos?" Um paradoxo, já que os fundamentos da democracia permitem o surgimento do perigo que ameaça a sua continuidade.
Na vertigem dos acontecimentos atuais, questiona-se a democracia e a sua solidez — ou a sua fragilidade. Tememos e interrogamo-nos... interrogo-me: por que razão o perigo escapa ao outro, quando para mim se torna tão evidente? Estarei a falhar na compreensão do outro? Como diz a Catarina (filha): "Devíamos dialogar mais com as pessoas que votam nos fascistas. As que se sentem excluídas. As que não têm voz. Fazer-lhes ver que estão a ser manipuladas". Será este o caminho? Será tarde demais?
Ao ritmo da não-ficção
Diante da ameaça à liberdade e aos direitos conquistados, impõe-se agir. Assinam-se petições, convocam-se manifestações, organizam-se movimentos; tenta-se a ilegalização do partido político extremista, cujos ideais são incompatíveis com os princípios consagrados na Constituição portuguesa. Mas tudo isto é incipiente, e muitas destas iniciativas parecem acontecer nas franjas da sociedade — embora muitos se revejam no slogan da resistência:“Por cada grunho, um punho”.
Surge-me um pensamento pueril: se o país voltasse a uma ditadura, arrepender-se-ia quem elegeu o ditador? Ficaria, finalmente, consciente dos perigos que encerram os partidos políticos personalistas? Ou continuaria alheado, apesar de o passado o comprovar? O que fariam aqueles que dizem que devíamos voltar ao tempo de Salazar quando percebessem que não poderiam agir livremente? Que perceção têm, afinal, do que é viver num sistema ditatorial?
Durante a minha vida, observei de perto pessoas a quem o regime salazarista passou ao lado. Todas as minhas perguntas sobre o tema ficaram sem resposta. Pareciam viver noutro país durante o Estado Novo.
Estavam ocupadas a sobreviver e a cumprir ordens. Pouco ou nada questionaram. O "25 de Abril" foi bom para o país — ouviram dizer. Sabiam que não se era livre. Sabiam que a PIDE era má. Salazar era uma figura distante, algures para os lados da capital. A liberdade deles terminava onde começava a luta pela subsistência.
“Não somos livres para expressar as nossas ideias. Temos de lutar.” — diziam os antifascistas. Mas muitos nem tinham tempo para ideias: ao fim do dia estavam demasiado cansados para expressar fosse o que fosse. A luta era outra e começava de madrugada. E se fossem mulheres, pior: depois da jornada nas fábricas, lavavam e passavam as fraldas de pano dos filhos em lavadouros públicos e iam aos fontanários buscar água para abastecer a casa, carregando bilhas à cabeça.
Não havia tempo para brincar com os filhos, entretidos dentro de uma caixa de cartão com um pedaço de pão. Havia uma casa para tratar e comida para fazer. No fim do dia, sentiam-se livres para descansar. O último pensamento, antes de adormecer, era:"Amanhã será mais um dia de luta para sobreviver".
O tempo passou e a vida falhou-lhes. A consciencialização era desconexa:"É assim a vida", diziam para rematar conversas sobre as lamúrias da vida dura que levavam. Alheados do seu direito a terem direitos, repetiam:“É assim a vida, fazer o quê”.
A caminhada fez-se no rés do chão. O elevador era inexistente — ou, melhor, desconhecia-se a utilidade do ascensor, pois não se sabia em que botão carregar para pôr a engrenagem em movimento. Na bagagem, guardou-se o ressentimento.
Hoje, vive-se uma revolta mal digerida. Acusa-se o outro, o sistema, a vida. E a fúria ganha corpo. As amarguras do passado vieram à tona; são agora feridas expostas."Exibam as vossas feridas", incitam os exploradores de feridas. Mas quem as exibe fá-lo ao serviço do ressentimento, não da cura.
A violência dita o extremismo, não a revolução. A ignorância — ou a falta de lucidez —tolheu-lhes o discernimento. Percebo o grito; por vezes, só a palavra gritada se faz ouvir. Como li no livro Por Dentro do Chega, do jornalista Miguel Carvalho:"Os populistas não podem trovejar contra problemas que já foram resolvidos". Porém, entre os ressentidos emergem os grunhos. Mas essa é outra espécie: a maldade corre-lhes nas veias.
Hoje, torna-se cada vez mais evidente a necessidade de defender os sistemas democráticos. Mas, sem educação e sem cultura, não há escudo contra a manipulação: não há pensamento crítico, não há resistência. A defesa da democracia começa aí — e deve iniciar-se antes do rapto. Porque, uma vez instaurado o cativeiro, a luta torna-se sangrenta. Já vimos este filme; não há como evitar o spoiler. E, ainda assim, parece que continuamos presos à iteração trágica da nossa história.
Os que me são próximos vivem agora uma deriva fundamentalista, enredados nos extremos que os aspirantes a autocratas alimentam, sem perceberem o perigo dessas investidas radicais. Entendem e aplaudem a linguagem da gritaria.
Quero começar a luta por aqui: libertá-los da armadilha dos discursos fáceis. Mas não sei gritar. Mostrei-lhes os factos: argumentei com números, percentagens e estatísticas para desmontar a mentira. Nada consegui. Talvez me falte o carisma do fascista — ou a espetacularidade da encenação.
Trouxe comigo a inspiração de Catarina e a Beleza de Matar Fascistas e, ainda assim, não fui capaz de os demover. Aninhei-me na frustração. Mas não desisti. Não desisto. Não há outra opção.
Perguntei-lhes: “O que vão fazer se voltarmos a viver numa ditadura?” A resposta revelou o equívoco, a realidade distorcida. Repetem o discurso do fascista. Corei, senti vergonha alheia. Congelei, impotente. E perguntei-me, em desespero: como é que se faz esta luta?
Tive de me ancorar, por momentos, na melodia do Zeca. O refúgio revelou-se breve e incómodo: lembrei-me de um conhecido cuja mãe batizara o cão de Zequinha, porque gostava muito de ouvir Zeca Afonso. A dada altura, ele proferiu a maldita frase: “Eu não gosto deles, mas até dizem umas verdades”. Perguntei-lhe, furiosa: “Se a tua mãe passa o tempo todo a ouvir Zeca Afonso, como é possível não o teres escutado?"
Finalmente, berrei — uma única vez — duas palavras: DEMOCRACIA E LIBERDADE.
Por aqui me fico: repúdio o discurso em tom de berro. Depois, calei-me. Mas não desisti.
Consultei a minha agenda. Próximo evento: MANIFESTAÇÃO — VIVA A LIBERDADE.
"Que ninguém me grite o ódio aos ouvidos"
Comecei pela afinação da guitarra. Seguiram-se os primeiros acordes.
Soou um ruído. Temi que o vinil que acompanhava a minha melodia estivesse riscado.
De súbito, ouvi uma desarmonia complexa, um multiarpejo que teimava inflar o desvario.
Retirei a agulha do vinil. Virei-o. Lado B.
Escutei os versos que se sucediam em tom de"retrotopia".
Resgatei sonoridades de outros tempos — inspirei-me, reescrevi e recompus:
Escolham a flor que quiserem.
Aquela que os olhos cobiçam e cuja cor desperta os sentidos.
Elejam a vossa favorita. Têm liberdade para o fazer.
Façam-no em paz, porque são livres.
Eu escolhi o cravo vermelho. E seguiu-se o "Rock da Liberdade".
Post Scriptum
Tenho a convicção de que, nos tempos que correm — mesmo que se preveja um futuro de transformações sociais semelhantes às de períodos menos positivos do passado —, o fascista vai morrer a tentar. Não porque a nossa democracia revele uma solidez inabalável, mas porque evoluímos ao ponto de reconhecer o perigo a tempo de o travar, ainda que, por ignorância, nem sempre reconheçamos os ecos da nossa história.




Comentários