O ESPELHO DE "DORIAN GRAY"
- 15 de dez. de 2025
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Atualizado: 31 de mar.

A dependência da câmara do telemóvel banalizou-se, e tudo o que acontece — inclusive, e sobretudo, no domínio da intimidade — parece exigir publicação, como se a exposição fosse a única forma de tornar real a experiência. A vida privada deixou de ser apenas vivida para passar a ser convertida em matéria visível, em prova de existência.
Brilho
Eu brilho.
Tudo em mim brilha.
A minha casa é brilho.
As minhas férias são brilho.
A minha relação amorosa é brilho.
As minhas peças de roupa são puro brilho: "Get ready with me"
O escape do meu carro "grita": "eu brilho"
As cores da minha vida — previamente alinhadas — refletem brilho.
O som da verborreia que sai da minha boca brilha.
"O brilho não cega nem ensurdece: o brilho brilha, ponto."
Em tempos de chuva, inventa-se o sol na ponta de um tripé.
Like me, follow me: porque eu brilho.
Um brilho por dia não sabe o mal que lhe fazia
Viver é difícil. Imaginar outra vida é a evasão possível: fixamos o olhar no vazio e, nesse intervalo suspenso entre o que somos e o que desejaríamos ser, idealizamos um relacionamento amoroso perfeito, uma casa extraordinária, um carro de sonho e viagens para destinos paradisíacos. Tudo isto vivido com indumentária de luxo, um corpo à medida dos padrões trendy e um rosto luminoso, polido no spa e afinado pela clínica de estética.
E a fantasia — sempre em versão "maxxing"— vai-se compondo com rigor cenográfico e chega-nos pronta a consumir.
É então que o "narciso" se instala: o ecrã do telemóvel converte-se em "espelho", as redes sociais oferecem-se como dispositivos de autoexibição, e a vida passa a ser fabricada num labor incessante de selfies.
A dependência da câmara do telemóvel banalizou-se, e tudo o que acontece — inclusive, e sobretudo, no domínio da intimidade — parece exigir publicação, como se a exposição fosse a única forma de tornar real a experiência. A vida privada deixou de ser apenas vivida para passar a ser convertida em matéria visível, em prova de existência. Publica-se para confirmar, para suscitar desejo, para obter reconhecimento, para alimentar a máquina da atenção. Cresce, assim, a necessidade de popularidade virtual, num voyeurismo da nossa própria utopia. E é nesse circuito que se instala a alternância exaustiva entre euforia e sofrimento: a oscilação emocional ditada pelo número de gostos, pelo teor dos comentários, pela adesão ou indiferença de um público invisível. É um mecanismo rudimentar, mas eficaz. Ficamos assim entregues a uma economia afetiva degradada, em que o nosso valor se mede por reações instantâneas.
Mas o que ali se mostra não é mais do que o "eu" idealizado: uma figura produzida para seduzir; uma construção imagética que nos condena ao disfarce, nos reduz à persona e nos aprisiona num regime de aparência permanente. A fantasia de superioridade, tão reveladora da fragilidade humana, cruza-se então com a encenação de um lifestyle glamoroso que, de tão insistente, se torna normativo. E essa normatividade do irreal é talvez um dos fenómenos mais corrosivos do presente: não porque minta apenas acerca da vida, mas porque reeduca o desejo, deformando-o.
Entregamo-nos, assim, à lógica algorítmica — opaca, mas implacável. O algoritmo seleciona, recompensa, amplifica, repete. E, nesse processo, vai adulterando a perceção do valor pessoal. Deixamos de reconhecer o mérito como consequência de realização, esforço ou obra. Em vez disso, começamos a confundir visibilidade com importância, exposição com valor, atenção com reconhecimento. Elevamo-nos a seres únicos e especiais a partir do "nada", que é inflacionado até parecer substância. Um jogo de aparências que ilude e, no fim, nos devolve à insignificância — não raras vezes, ao ridículo.
É neste ponto que a questão passa a ser séria: quando a vacuidade deixa de ser apenas um efeito colateral da cultura contemporânea e se converte na sua principal referência aspiracional.
A plenitude é um conceito abstrato. As fórmulas do sucesso nunca foram simples. Reduzi-las a um conjunto de sinais exteriores vendáveis é uma forma de manipulação particularmente eficaz porque atua sobre a vulnerabilidade. Grande parte do conteúdo digital consumido pouco ou nada nos eleva; pelo contrário, corrói-nos a assertividade, embota o juízo e embrutece o pensamento. A saturação de estímulos, a repetição de slogans emocionais, a cultura da reação instantânea e do ódio performativo não nos tornam mais livres nem mais lúcidos: tornam-nos mais permeáveis, mais ansiosos, mais facilmente conduzíveis. A manipulação prospera onde o discernimento enfraquece.
Não se trata, por isso, apenas de mau gosto ou futilidade. Trata-se de um ecossistema simbólico que explora diretamente a vulnerabilidade, sobretudo a dos mais jovens — esse coletivo do futuro em "desconstrução", que vai acumulando vivências enviesadas, patrocinadas pelas redes sociais. O jovem vê a vida "sublime" do influencer e mede-se por ela. Nessa comparação desigual, vai colecionando aquilo que julga serem falhas. Confronta-se, dia após dia, com a evidência cruel de que a sua vida está longe dos padrões irrealistas de perfeição. A realidade deixa de lhe servir; parece-lhe inadequada, insuficiente, indigna do esplendor que observa, a toda a hora, no ecrã. O espelho distorce-lhe a imagem, e o que nele vê já não é um eu em formação, mas um eu diminuído. Daí à ansiedade, ao isolamento, ao retraimento e ao desconforto da própria solidão vai uma distância cada vez mais curta.
Quem será esse jovem? O que construirá no futuro?
A nossa atenção é hoje um bem transacionável — dos mais valiosos — e está à mercê do poder hipnótico do algoritmo que, agindo na invisibilidade, se revela obstinado na narcotização dos nossos cérebros: recompensa imediata e viciante. O mecanismo é conhecido: estímulo, resposta, repetição; desejo, frustração, nova procura.
É esse o grande negócio: capturar tempo, condicionar desejo, moldar comportamento. O cérebro responde. Volta. Insiste. Obedece. O cérebro humano, afinal, é profundamente corruptível: uma "Maria vai com as outras" dotada de tecnologia de ponta. O aparato sofisticou-se; a estrutura de fundo, nem por isso.
Todos temos a nossa quota de narcisismo. Porém, quando este se manifesta de forma patológica, carece de tratamento. Mais grave é elevá-lo à categoria de norma cultural, sobrestimá-lo, celebrá-lo e reproduzi-lo como se fosse apenas expressão inofensiva de autoestima. Uma suposta normalidade que, nas redes sociais, torna-se predatória. Esse reduto onde o absurdo já não surge como exceção: massifica-se. E o disparate, repetido e amplificado, ganha estatuto de evidência:"Birds Aren’t Real".
As redes sociais são, em teoria, uma invenção extraordinária: uma possibilidade inédita de servir a inteligência coletiva à escala global. Uma promessa de partilha de conhecimento e de aproximação entre pessoas. Mas, na prática, a sua utilização dominante revelou outra coisa: uma arquitetura de captação, dependência, exibição, simplificação e manipulação.
Talvez por isso apeteça dizer, com deliberado exagero, que sobre elas deveria recair uma interdição provisória. Uma interrupção de uso, até aprendermos a habitá-las sem nos deixarmos devorar por elas. Mas essa é outra utopia.




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